Lili

Com cinco anos de idade, sem titubear, eu afirmava que seria cabeleireira. Desisti quando, aos 11 anos, quase infartei meu pai ao deixar o cabelo da minha irmã igualzinho ao da dupla Xitãozinho e Xororó. Deixei meus irmãos em paz e passei a cortar apenas a minha franja.

Mudei o foco e comecei a alimentar a fissura que eu tinha por pirâmides, dinossauros e Machu Picchu. Nasceu a certeza de que eu seria arqueólaga. Depois, oceanógrafa, bióloga, artista plástica e atleta (por incrível  que pareça, a sedentária aqui era campeã de salto em distância, salto em altura e corrida de velocidade).  Fiz produção de moda e depois tive certeza de que seria documentarista. Eu sempre quis ser muitas coisas, mas para preocupação dos meus pais, nunca cogitei nada muito tradicional, do tipo medicina, odontologia ou advocacia. E sempre acabava ouvindo que eu sonhava demais.

Adulta, continuei sonhando. Às vésperas do vestibular, ainda tentei agradar meu pai, prestando para odontologia e veterinária. Mas também fui atrás do que eu queria no momento. Passei no vestibular para jornalismo, pedi desculpas por não corresponder expectativas e ganhei do meu pai uma caixa com um gravador, uma pancada de fitas e uma carta dizendo que eu teria seu apoio seja lá no que eu decidisse fazer.

Virei jornalista. E como a maioria dos jovens que ingressam nesse curso (pelo menos naquela época), eu nem pensava em ficar rica. Com uma visão bem romântica da profissão, eu queria contar a história de vários povos e viajar o mundo todo. Ser uma repórter estilo National Geographic. Não aconteceu bem como imaginei. Mas contei histórias interessantes e viajei um pouquinho.

Passei pelas Relações Públicas e conheci o que se chamava de jornalismo empresarial. Gostei e me joguei no mundo corporativo. Fiquei nele por quase 20 anos, até o momento em que fui obrigada a sair da zona de conforto e buscar novos caminhos.

O engraçado é que nesse tempo todo em eu quis ser tantas coisas, nunca deixei de cultivar o amor que tenho pela cozinha e pela fotografia. Talvez não seja à toa que hoje (e por enquanto) eu seja apenas a Lili  que tem um doce mundo e uma caixa mágica.